Dos redutos aos acampamentos, herança da Guerra do Contestado permanece presente

O evento ocorreu no município da Lapa, sul do estado, terra que fazem parte do território Contestado e por onde andou o monge João Maria D’Agostini, um dos profetas precursores e inspiradores da resistência cabocla.

A continuidade da luta do povo do Contestado, pelo acesso à terra para produzir e viver com dignidade, se materializou no perfil do público da Jornada: a maior parte dos 3 mil participantes eram camponeses assentados ou acampados, que ainda são ou já foram sem-terra, integrantes de organizações populares do campo – em especial do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Fotos, maquetes, mapas, réplicas da alimentação e das vestimentas da época, somados à história na ponta da língua, formaram o repertório dos estudantes que protagonizaram o “Túnel do Tempo” sobre os 100 anos da guerra.

Como uma espécie de museu, a grande lona no Túnel cumpriu o papel de resgatar e apresentar o contexto e principais características da luta. Entre agricultores e professores universitários, a fila para visitar o local era constante.

As ripas de madeira em forma de trilhos representaram o principal motivo do conflito: o governo brasileiro doou terras a madeireiros e à industria madeireira Lander, como pagamento pela construção de uma estrada de ferra na divisa entre Paraná e Santa Catarina.

O povo caboclo morador do território resistiu durante quatro anos até ser dizimado pelo exército. A estimativa é de que mais de 10 mil camponeses tenham sido assassinados.

Nos trilhos do Contestado

“O valor histórico do Contestado é muito forte pelo seu exemplo, que faz parte do imaginário popular do nosso estado e da região, tida como muito conservadora e sem grandes enfrentamentos, o que não é verdade”, afirma Ricardo Prestes Pazello, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e integrante do Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS).

Para Pazello, o Contestado representa o fio condutor de um processo de aglutinação de forças populares, que gerou uma “verdadeira guerra do povo da região contra o capital, no Paraná moderno que nascia”.

A experiência e a memória dos quatro anos de luta continuaram vivos e, nas décadas seguintes, outros processos de organização popular se espalharam. Por acesso à terra, camponeses encamparam a Guerrilha de Porecatu (1946-1951), no Norte do Paraná, organizada com influência do Partido Comunista Brasileiro – PCB.

Na região Sudoeste, a Revolta dos Posseiros de 1957 saiu vitoriosa e expulsou a Clevelândia Industrial e Territorial Ltda (Citla) que, em conluio com o governo de Moysés Lupion, promovia o terror entre as famílias camponesas para tomas suas terras.

As relações entre as experiências de luta camponesa ano Paraná ficam mais evidentes conforme aos movimentos populares resgatam a história, como fazem as entidades organizadoras da Jornada e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“Só os movimentos populares poderiam fazer esse resgate, por que justamente são eles que conseguem dar uma lição  para a sociedade que tem, por exemplo, a educação formal uma quase que total negligência com relação a sua própria origem, identidade e formação histórica”, garante o professor.

Contestado

As principais lideranças, batalhas e redutos – locais de resistência coletiva dos caboclos – dão nome a várias experiências de organização do MST. Maria Rosa do Contestado, que chegou a liderar 10 mil camponeses e foi morta aos 16 anos, batiza o acampamento de Castro. Criada no final de agosto de 2015, a ocupação reúne 250 famílias sem-terra, todas adeptas da agroecologia.

“É um exemplo de acampamento produtivo, onde as pessoas tiram seu sustendo de uma forma agroecológica, com trabalho organizado coletivamente”, explica Nei Orzekovski, integrante da coordenação da Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA) e da direção estadual do movimento. “Não é à toa, a região do Contestado é a mais camponesa do Paraná”, afirma.

Também baseado na produção agroecológica há 14 anos, o acampamento Reduto de Caraguatá está localizado no município de Paula Freira, e carrega o nome de um dos focos de resistência dos caboclos do Contestado.

Na região de Teixeira Soares e Irati, a Brigada João Maria D’Agostini homenageia o monge que peregrinou pela América Latina em meados de 1800, e é tido como o primeiro a andar por terras paranaenses. Pelo interior do estado, a história oral garante que muitos olhos d’água nasceram depois da passagem do monge pelo local.

Foi assim com a montanha rochosa em que João Maria viveu na Lapa, por onde os caboclos da região passavam em busca de cura e aconselhamento. A sua antiga morada foi batizada de ‘Gruta do Monge’.

Na Lapa, está o Assentamento Contestado, onde o modelo agroecológico é o modo de produção adotado pela maior parte das famílias, além de se multiplicar por meio da ELAA. Os estudantes da escola municipal e do colégio estadual do assentamento estiveram entre os organizadores do Túnel do Tempo.

Fruto do “Túnel do Tempo”

Junival Souza Fiatecoski, morador de São João do Triunfo (PR), é um dos veteranos do Túnel do Tempo, apesar de ter apenas 18 anos. Sua primeira experiência com a atividade foi na 4ª série do ensino fundamental, por incentivo de professores. O vínculo continuou quando chegou no ensino médio, e ganhou corpo ao ingressar no curso técnico em Agroecologia da ELAA.

A partir da experiência pessoal de participar da realização dos ‘túneis’ sobre o Contestado, o jovem percebe que a compreensão da história local e territorial permite compreender melhor a realidade atual, e as conexões entre elementos da cultura como decorrência dos fatos históricos.

Ele reforça a importância da apropriação do tema pelos jovens, presentes em peso na 15ª Jornada. “Muitas vezes, por causa do lixo cultural que é jogado pra juventude, ela deixa de valorizar sua realidade, suas raízes, e de conhecer de onde ela vem, e acaba desvalorizando o local onde vive”.

A partir do estudo sobre a Guerra do Contestado e da compreensão sobre como se organizam os diferentes atores sociais no local, Fiatecoski vê possibilidades da formação de leituras profundas da realidade: “É dessa forma a gente vai conseguir construir uma sociedade mais crítica, mais consciente, que conheça e valorize o seu lugar de origem”.