A revolução da saúde por meio do auto-conhecimento corporal e das plantas medicinais

Oficina de bioenergia apresenta concepção integral de saúde durante a Jornada de Agroecologia

Por Michele Torinelli

Entre as mais de 40 oficinas oferecidas na 15ª Jornada de Agroecologia, uma esteve relacionada diretamente à saúde humana: a de bioenergia. Trata-se de uma concepção de saúde que, diferentemente da medicina alopática predominante nas clínicas e hospitais, não está voltada para o tratamento de sintomas, mas para o reconhecimento dos fluxos energéticos, o auto-conhecimento corporal e os tratamentos naturais.

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A oficina aconteceu ontem (28) no Assentamento Contestado, no município da Lapa, comunidade do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) referência em agroecologia, e contou com a participação de mais de 30 pessoas, entre assentados do movimento, outros agricultores e estudantes de vários estados e de outros países, como Argentina, Itália, Paraguai, País Basco, Colômbia e Peru. Entre os ministrantes estavam moradores do assentamento e amigos de longa data, como José Tobias de Moura, mais conhecido como Tobias, que já ajudou o movimento a ocupar nove áreas em General Carneiro, cidade paranaense onde já foi candidato a prefeito e a vereador, além de ser um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores no município.

Há 22 anos Tobias atua com bioenergética, quando passou a tratar seu pai, que estava desacreditado pelos médicos. Com o tratamento bioenergético, ele viveu mais dezoito anos. Ele conta emocionado que seu pai, quando já se despedia, o incentivou a sempre seguir esse caminho, de cura do próximo. Ele não liga quando o chamam pejorativamente de macumbeiro, pois acredita nas medicinas naturais e na disseminação do seu conhecimento.

A bioenergia surgiu no Brasil no início da década de 1990, quando o missionário franciscano Renato Barros, que hoje mora em Maringá, retornou da Nicarágua. O padre aprendeu com os guerrilheiros sandinistas que, por estarem refugiados e não terem acesso a médicos e hospitais, tiveram que desenvolver outros meios de se tratarem, e acabaram adotando a bioenergia. Hoje a prática é bastante difundida: só Tobias já deu cinco cursos apenas no assentamento contestado.

“O objetivo dessa oficina é passar essa sabedoria pra vocês, que não têm interesse em dinheiro. Porque na hora em que isso cair na mão dos médicos, nós não poderemos mais praticar”, diz Tobias. Por muito tempo esses conhecimentos tradicionais, do corpo e das plantas, foram estigmatizados e deixados de lado. Agora, com a difusão de uma conscientização em relação aos males causados pelos remédios industrializados, os agrotóxicos e o modo de vida urbano, esses saberes ressurgem.

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Mas, como tudo no modo de vida capitalista, essas práticas têm sido apropriadas e transformadas em produtos elitizados acessíveis somente a poucos que podem pagar. Isso acontece de maneira sutil, com a difusão de um estilo de vida ecocapitalista – o tal do capitalismo verde, “sustentável”, que não questiona a estrutura de exploração e de desigualdade de nossa sociedade e estimula o consumismo –, mas também de formas mais evidentes, como a apropriação de plantas tradicionais por grandes empresas através das patentes. Por isso a preocupação de Tobias de que esse conhecimento seja repassado com o fim do auto-conhecimento corporal e da cura , e não do lucro.

Essa percepção, para além da saúde, dialoga de forma mais ampla com o projeto de sociedade do movimento. Maria Natividade de Lima, agricultora e terapeuta que facilitou a oficina de bioenergética junto a Tobias, explica que o objetivo da reforma agrária é que todos possam cuidar da terra, viver num espaço pequeno, suficiente, sem ter a ambição de ficar acumulando, como fazem os latifundiários. “Esse espaço é para viver bem”, diz ela referindo-se ao assentamento, “não para explorar. Não é para ficar rico. Se alguém quiser isso, tem que ir embora daqui.”

Saúde, modo de vida, alimentação e plantas medicinais

A primeira coisa que Tobias fez ao iniciar a oficina foi desligar o celular. “Isso é a pior coisa que já inventaram”, disse, referindo-se à interferência do aparelho nos fluxos energéticos. Ele alerta que o aparelho é bastante prejudicial à saúde, “isso e os transgênicos, as duas pragas que inventaram para acabar com a gente. E tão conseguindo”, adverte. Ele entende que hoje em dia a gente depende do celular, por isso ele mesmo possui um, mas alerta que se deve desligar o aparelho ao se trabalhar com bioenergia, assim como afastar-se de computadores e até mesmo de eletrodomésticos. “Interfere na checagem”, explica.

Tobias e o bálsamo brasileiro – segundo ele, o melhor remédio que existe.

Isso porque a avaliação bioenergética se dá de maneira em que o próprio corpo do consultante indica quais são suas debilidades e do que precisa, de forma bastante simples. O consultante faz um anel com o polegar e o indicador, e tenta mantê-lo fechado. O atendente tenta abrir também com um anel que faz com seus dedos: se abrir, o local do corpo que está sendo avaliado está debilitado a resposta à pergunta feita ao corpo é “não”; ou o local do corpo que está sendo avaliado está debilitado.

A partir da avaliação bioenergética, o tratamento baseado em dieta alimentar e fitoterápicos é receitado. Mas a proposta é o auto-conhecimento e a adesão a um modo de vida saudável, cuja base é a alimentação. Para isso devemos consumir vegetais agroecológicos e renunciar ao consumo de produtos de base animal – o que, além das carnes, inclui ovos e laticínios. Tobias defende que a propaganda de que precisamos consumir esses alimentos para obter proteínas é um mito.

Ao longo da oficina, foram dadas várias dicas de como tratar doenças com fitoterápicos, que são produtos desenvolvidos a partir de plantas medicinais. Na parte da tarde, o facilitador da oficina Edson Chagas, que pratica agrofloresta no assentamento Contestado, guiou os participantes pela mata para recolher terra para ser usada em emplastros. “Tem que ser uma terra pura, sem agrotóxicos ou adubo”, explica. Por isso é preciso cavar fundo para encontrá-la – e para saber a profundidade certa, aplicou-se o método de checagem da bioenergética para que a terra mesma indicasse. Uma pessoa segurou um punhado da terra e Edson fez a checagem, e assim chegou-se à profundida ideal para que a terra adequada fosse coletada.

Na sequência, Maria Natividade e Tobias prepararam dois produtos fitoterápicos: a pomada de cipreste e o específico, que é uma tintura de guaco e cipó mil homens que serve como antídoto para picada de cobra, aranha e escorpião, além de poder ser usada em picadas e para mal-estar de modo geral. [Confira as receitas ao final].

 

Saúde e movimento

Troca de saberes durante a oficina de bioenergética no assentamento Contestado.
Troca de saberes durante a oficina de bioenergética no assentamento Contestado.
Tobias, Maria Natividade e Edson, assim como o Setor de Saúde do MST como um todo, não atuam apenas com bioenergia, mas outras técnicas complementares, como fitoterapia, massoterapia, auriculoterapia, reiki e do in. Essas técnicas são aplicadas ao longo da Jornada de Agroecologia na barraca da saúde, que faz atendimentos durante o evento e disponibiliza produtos fitoterápicos.

Maria Salete Bach, integrante do coletivo de saúde do movimento, explica que essa concepção mais ampla de saúde tem a ver com a convivência entre as pessoas, com a natureza, como o meio em que a gente vive; como a gente produz, como a gente come, com a gente se relaciona com os outros seres. Por isso a visão de saúde do movimento não se restringe ao atendimento médico, mas à promoção, à prevenção e à educação. “Saúde é até como a gente faz a luta, porque a saúde de um povo se mede por sua capacidade de luta”, entende Maria Salete, pois uma pessoa saudável tenta mudar aquilo que causa dor.

A militante acredita que para atuar com saúde não precisa ter diploma, e cita o médico revolucionário Che Guevara: “para a gente saber o que o povo sente não precisa ser médico, basta ter coração”, pois carinho, atenção e noção de coletividade
também geram saúde, complementa Maria Salete. Muitas pessoas do movimento que se dedicam à cura não possuem diploma de médico, mas possuem experiência, formação e, talvez o mais importante, sensibilidade.

Mas o MST também investe no conhecimento acadêmico: em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul, implementou um curso de medicina para integrantes do movimento. Entre eles está Aílton Lins, do acampamento Dom Tomás Balduíno, que conta que o curso aborda não só o conhecimento médico convencional, mas também as medicinas naturais.

Um outro projeto de sociedade precisa de um outro projeto de saúde. “Isso aqui é a verdadeira revolução do que é a medicina, do que é a saúde e a vida como um todo”, disse Genecilda, integrante do movimento que participou da oficina de bioenergética. É uma revolução que se faz na prática, valorizando os saberes ancestrais, o conhecimento das curandeiras e benzedeiras; implementando a agroecologia, em cuidado com a terra e com o outro.

 

Receitas fitoterápicas

Ingredientes da pomada de cipŕeste preparada na oficina.

 

Pomada de cipreste

1 prato bem cheio de folhas de cipreste picadas

1 litro de óleo (girassol, oliva ou qualquer um que não seja transgênico)

30 g de cera de abelha

Refogar as folhas no óleo até que parem de borbulhar (sinal de que toda a água evaporou), preferentemente em panela de ferro (evitar sobretudo as de alumínio). Coar, ainda quente, com pano e acrescentar a cera de abelha. Colocar nos recipientes desejados e deixar esfriar.

Recomenda-se para verruga, herpes, cravo, espinha, dor na bexiga, manchas e demais irritações de pele.

 

Específico

Guaco

Cipó mil homens

Álcool (o mais recomendado é pinga pura de alambique)

Descascar o cipó, e picá-lo. Picar o Guaco. (Sempre que possível, no manejo de plantas medicinais, utilizar as mãos – o que é o caso ao descascar o cipó e picar o guaco. Já para picar o cipó, é preciso usar faca, porque é bastante duro).

Selecione o vidro de acordo com a quantidade que deseja fazer. Metade dele deve ser preenchido com as plantas (bem compactadas). Dessa metade, um quinto deve ser de cipó e os quatro quintos restantes de guaco picado. Na sequencia, preencher o vidro com álcool.

Cobrir o vidro com jornal e deixar guardado de nove a quinze dias. Após esse período, deve ser coado e está pronto.

É tomado em caso de picada de cobra, aranha e escorpião (tomar cerca de 40 gotas diluídas em água a cada 2h).

Para machucados e picadas em geral, uso tópico.

Contra-indicação: o guaco é abortivo, portanto não deve ser ingerido por gestantes.

Tobias recomenda colher folhas na lua cheia e raízes na minguante. Na nova e na crescente, não se recomenda colher – isso no que se refere às ervas medicinais.

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