Com conselhos Frei Betto provoca a militância de esquerda

Foto: Leandro Taques

Por Maura Silva

 

Frei Betto esteve na tarde dessa sexta-feira (24), em Irati para a 14ª Jornada de Agroecologia. O militante e escritor falou por cerca de uma hora para as mais de quatro mil pessoas que estavam no local. Frei Betto usou como base um texto de sua autoria intitulado de 10 Conselhos para os Militantes de Esquerda.

Abaixo seguem os conselhos dados por Frei Betto aos militantes da Jornada.

1- Mantenha viva a indignação: Criamos vícios de direita, perdemos o entusiasmo de ser criativos na luta. Mantenhamos viva a indignação: um militante não pode nunca perder seu senso crítico. Muitas vezes, por interesses pessoais, não se critica o outro. Será que estamos perdendo o poder de criticar de maneira construtiva? O poder não redime ninguém, o poder revela. Me lembro de uma vez ter ouvido um ditado que nunca mais esqueci: “Se queres saber quem é Juanito, dê-lhe um carguito”. Então eu pergunto: Será que estamos repetindo nos nossos Movimentos o sistema burguês, de lideranças burras, que fazem críticas pelas costas? A crítica é importante para rever os passos da caminhada.

2 – A cabeça pensa aonde os pés pisam: Não dá para ser de esquerda sem “sujar” os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é o jogo da direita. Os Nossos políticos se descolaram da base. Penso que se há um problema com os partidos de esquerda no Brasil, é ter eleitores e não ter militantes. Não se pode deixar de caminhar nas bases populares, mesmo que se vire presidente do país. É mantendo o vínculo com movimentos sociais que encontramos o gás que nos alimenta nessa luta.

3 – Não se envergonhe de acreditar no socialismo: Sempre me questionaram o seguinte: Você que é frade e se mete em política? Eu como cristão, sou discípulo de um preso político, Jesus foi preso, torturado e condenado por dois pesos do Estado, assim como Vladimir Herzog. Não podemos confundir os princípios com as experiências negativas, o modelo stalinista de socialismo fracassou, mas não o socialismo. A humanidade não tem futuro fora da partilha dos bens da terra. Todo mundo está de acordo que o Brasil precisa fazer ajustes fiscais, mas esses ajustes não podem ficar só no colo do trabalhador.

4 – Seja crítico sem perder a autocrítica: Seja crítico, sem perder a autocrítica. Temos facilidade a dirigir críticas ao governo. Como ninguém é juiz de si mesmo, é preciso que outro fale aonde estamos vacilando.

Foto: Leandro Taques

Foto: Leandro Taques

 

 

5 – Saiba a diferença entre militante e “militonto”: É preciso que saibamos a diferença entre militante e militonto. Cada um de nós devemos saber onde está nossa trincheira. Entramos na luta por alguma porta. Vivemos numa sociedade burguesa, com a cabeça feita pela grande mídia. Exemplo disso é a nossa mídia que enfia na cabeça do brasileiro que alimento envenenado, cheio de agrotóxico e de elementos cancerígenos é bom.

6 – Seja rigoroso na ética da militância: Certa vez ouvi de Fidel, “Frei Betto: Um revolucionário pode perder tudo, menos a moral. O patrimônio ético do militante é o que ele tem de mais importante”. A direita não posa de ética, mas nós, a esquerda sim. Por isso, quando pisamos na bola, a cobrança é tão pesada. O verdadeiro militante é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

7 – Alimente-se na tradição da esquerda: Ande sempre com um livro ainda que você tenha certeza de que não tenha tempo de abri-lo. Precisamos de elementos para debater a atual esquerda, assim, não cometermos hoje os mesmos erros do passado.

8 – Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles: Os pobres agem por princípio de necessidade, a elite age por interesse. É importante que saibamos que não existe pessoa mais culta que a outra, existem culturas distintas e socialmente complementares. O nosso povo é culto, só não sabe que é.

9. Defenda sempre o oprimido, ainda que aparentemente ele não tenha razão: Quando criticam as ocupações do MST, dizendo que são agressivas ou coisa parecida, sempre respondo lembrando a quem perguntou que agressivo é o colonialismo, a escravatura, a política para os imigrantes. O exagero que o pequeno faz não é nada diante das enormes atrocidades organizadas pelos grandes para dominar o mundo.

10 – Faca da espiritualidade um antídoto contra a alienação: Não falo de fé. A espiritualidade pode ser religiosa ou não. É importante que cultivemos a nossa subjetividade. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta. Os dons da vida são um mistério, a vida é toda centrada na experiência do amor, e o amor é um mistério. Não importa se uma pessoa é atéia ou à toa, tem é que ser revolucionária. E sem tem uma coisa da qual nós podermos ter certeza é a de que o amor é revolucionário.