Produtos da reforma agrária movimentam 14ª Jornada de Agroecologia

Foto: Amanda Souza

Feirantes despertam atenção do público da Jornada e mostram a relação entre produtos agroecológicos vendidos e suas histórias de vida

Por Camilla Hoshino

Quem passa pela 14ª Jornada de Agroecologia com apenas sete reais no bolso, pode escolher entre uma diversidade de produtos expostos na Feira de Orgânicos e Agroecológicos. São mais de 40 barraquinhas com produtos diversos. Sementes, frutas, alimentos em geral, cosméticos naturais, remédios homeopatas, entre outras curiosidades produzidas em assentamentos e associações, disputam os olhares curiosos dos visitantes.

Foto: Gabriel Dietrich

Foto: Gabriel Dietrich

A escolha é difícil, pois o cheiro do bolo com cobertura compete com o da geleia, o das frutas maduras e dos pães de mandioca, batata doce, abobora e integral. Estes últimos chamam atenção por serem vendidos por garotos muito jovens. Eles vêm de Laranjeiras do Sul, do Assentamento Recanto da Natureza. Composto por poucas famílias – cerca de 20 -, o local também é rico na produção de mel, produto bastante procurado nesta feira.

“Vários vizinhos têm colmeias, então a gente começa escolhendo as boas. Depois tem que centrifugar também”, explica Leo da Paixão dos Santos. E seu primo Everton Ferreira, com quem divide a venda na barraca, completa: “Não pode esquecer que tem que limpar e embalar”. Apesar de jovens, os garotos descrevem o processo de produção do mel com intimidade. Eles contam que é a primeira Jornada de Agroecologia da qual participam.

Cultivando alimentos

Foto: Amanda Souza

Foto: Amanda Souza

Há também os veteranos da feira. Dona Izaura Borges Becker é produtora de arroz orgânico e participa do evento desde 2002. A terra que possibilita o seu cultivo se localiza em Querência do Norte, no Assentamento Pontal do Tigre, onde há cerca de 350 famílias. Ali, há tantos anos de produção quanto de variedades de arroz. São oito no total, produzidas a partir da várzea, terreno plano que margeia o rio. “É uma terra fértil e boa para este tipo de plantio”, garante a produtora.

Para Izaura, apesar de mais famílias estarem iniciando a produção orgânica, o processo ainda se dá com dificuldades. “A gente planta para consumo próprio e troca o que sobra entre os vizinhos, assim a gente vai conhecendo e aprendendo a comer outras coisas, desde arroz até peixe”, explica.

Como exemplo, ela cita o consumo do açúcar mascavo em sua casa, que vem da produção de Seu Antônio Mariano dos Santos, do Assentamento Oziel Alves Pereira, localizado em Santa Cruz do Monte Castelo. Parceiros e não por acaso, os dois também são vizinhos de vendas na feira da Jornada.

Como há certificação, uma parte da produção de Dona Izaura também é destinada à merenda escolar da região, por meio do Programa Nacional da Alimentação Escolar. Os dois também são vizinhos de vendas na feira da jornada.

Colhendo arte

Na Jornada de Agroecologia, os frutos da terra não aparecem apenas em forma de alimento para consumo. De alguma maneira, eles também se transformam em arte. No caso do trabalho exposto por Maritânia Andretta Risso, as sementes crioulas viram mandalas de diversos tamanhos, com cores e formas distintas.

A artista vem do Assentamento Bela Vista, em Abelardo Luz. “É a primeira ocupação de terra do MST em Santa Catarina”, conta. Há trinta anos na região, Maritânia integra o setor de cultura do movimento e desenvolve um trabalho de construção de painéis e quadros de sementes com a juventude e com as mulheres nas escolas.

Foto: Gabriel Dietrich

Foto: Gabriel Dietrich

Durante a exposição, ela fala da trajetória de seu trabalho no projeto Germinando Arte, que tem o objetivo de sistematizar as experiências agroecológicas dos agricultores e agricultoras por meio do resgate, preservação e multiplicação de sementes. Para isso, utiliza-se da arte, a partir de uma técnica mexicana oriunda da cultura indígena. “Em vinte anos, foram multiplicadas mais de cinquenta variedades de sementes”, afirma Maritânia.

Além disso, ela explica que, enquanto o papel do plantio se concentra na mão das mulheres, o da colagem das sementes fica a cargo dos homens e da juventude. “É incrível! Este trabalho traz um encantamento pela arte e possibilita uma ligação direta entre ela e a colheita”.