Detector de agrotóxico

O novo sensor detecta, em amostras de solo, água ou alimento, os níveis de contaminação por metamidofós, pesticida altamente tóxico usado principalmente nas culturas de soja, milho, algodão, tomate, batata, pimentão e morango. A pequena fita contém acetilcolinesterase, enzima que sofre uma alteração em seu padrão de emissão de prótons quando entra em contato com o metamidofós, o que permite detectar a presença desse pesticida nas amostras analisadas. (foto: divulgação)

Novo biossensor pode indicar presença de pesticida em amostras de solo, água e alimentos. A tecnologia, resultado de uma parceria entre pesquisadores da UFMT e da USP, tem baixo custo e poderá auxiliar práticas de controle ambiental.

Talvez você não o conheça. Mas certamente já ingeriu doses homeopáticas desse silencioso veneno. Estamos falando do metamidófos– um dos pesticidas mais utilizados nas lavouras brasileiras até muito recentemente.

Sua comercialização foi proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2012. Ainda perduram, no entanto, seus efeitos toxicológicos no ambiente e na saúde humana.

E como saber se determinada amostra de solo, água ou alimento está contaminada com esse pesticida? A resposta pode ser dada pelo novo biossensor desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos. É uma espécie de ‘detector de agrotóxico’.

“Trata-se de um biossensor compacto e de baixo custo”, define a matemática Izabela Gutierrez de Arruda, que projetou o aparelho durante seu mestrado no Instituto de Física da UFMT. O princípio é simples: em uma fina película especial, é colocada uma enzima chamada acetilcolinesterase, que está naturalmente presente no organismo humano e atua nas ligações entre os neurônios (sinapses). O metamidofós ataca essa enzima, podendo provocar graves danos à saúde.

Em condições normais, a acetilcolinesterase emite prótons. Mas, em contato com moléculas de metamidofós, essa produção é alterada. A leitura dessa alteração pelo aparelho indica que determinada amostra está contaminada com o pesticida.

“A detecção é feita em poucos minutos”, diz Gutierrez, explicando que, pelos métodos tradicionais, o tempo de espera é muito maior. “Hoje geralmente aferimos a presença de resíduos de pesticida em amostras após enviá-las a laboratórios de cromatografia e espectroscopia.”

A tecnologia traz ainda outra vantagem: ela pode ser facilmente adaptada para detectar outros agroquímicos além do metamidofós.

Primeira patente em 40 anos

A ideia ainda não ultrapassou as fronteiras da academia. Mas o projeto já está devidamente patenteado – é, aliás, a primeira patente registrada na UFMT, após 40 anos de existência dessa instituição. “Aguardamos a iniciativa do setor privado, que deve logo se interessar em produzir o novo biossensor”, comenta um dos orientadores do projeto, o físico da USP Francisco Eduardo Gontijo Guimarães. Segundo os cálculos da equipe, cada aparelho deverá custar entre R$100 e R$200.

“O biossensor pode ser útil à indústria alimentícia”, prevê Izabela Gutierrez. Ela diz que produtores rurais e agentes de fiscalização também poderão se beneficiar do aparelho para otimizar práticas de controle ambiental. “O próprio Ministério da Saúde pode se interessar, dado que o uso de agrotóxicos é, atualmente, um problema de saúde pública.”

Contaminação do lençol freático, dos rios e dos solos, danos neurológicos, convulsões, distúrbios de concentração e memória… A lista de danos associados a esse agrotóxico é extensa.

Embora o metamidofós tenha sido proibido, os pesquisadores acreditam que ele ainda pode estar sendo usado em nossas lavouras. Só para constar: em Mato Grosso, o maior usuário nacional desse pesticida, o consumo anual era de, em média, seis milhões de litros por ano.

 

Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line