Transgênico aumenta resistência de lagartas e demanda mais agrotóxicos

A safra agrícola 2013-2014 começa a ser semeada nas próximas semanas em clima de insegurança entre os produtores. Até sexta-feira, o governo federal não havia ainda sancionado lei que permitiria a importação e uso emergencial do benzoato de emamectina. Sem o agrotóxico, parte expressiva da plantação corre risco de ser devorada por uma lagarta exótica e com apetite para mais de 140 espécies vegetais. Na safra 2012-2013, ela engoliu R$ 1,5 bilhão em colheitas na Bahia.

A lagarta “helicoverpa armígera” tem origem incerta – não se sabe se veio da Índia ou da Austrália – e infesta lavouras da Europa, da China e dos EUA, que a combatem há anos. A praga devora soja, milho, sorgo, feijão, algodão, abóbora e outros grãos e frutos. No Brasil, teria chegado às lavouras no final de 2012. Neste ano, estimulada pela redução das chuvas, espalhou-se por cinco Estados – Bahia, Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Paraná. Mas tende a alcançar plantios em outras regiões na próxima safra.

O economista Odacil Ranzi notou a presença da lagarta em sua plantação de soja no oeste baiano em fevereiro, quando as vagens apresentaram um furo redondo. Ao abri-las, surgia uma lagarta diferente da helicoverpa já conhecida no Brasil, voraz até mesmo por plantas transgênicas. “Na mesma semana, elas apareceram nas plantações de todos os produtores da região. Todo mundo tentou as mais variadas misturas de defensivos, tudo o que existe no mercado. Nenhum produto funcionou. Meus 8 mil hectares plantados foram atingidos”, diz Ranzi, do grupo familiar Condomínio Passo Fundo.

Na última safra, das 70 sacas por hectare esperadas, Ranzi colheu 45. Seu prejuízo alcançou R$ 2,5 milhões. A nova safra começa a ser semeada depois do dia 15, quando começar a chover. Seus planos são de plantio de 6.800 hectares de soja e o restante, de milho. Pelo menos 50 hectares servirão para o teste de uma nova semente de soja transgênica, a Intacta RR2 PRO, supostamente resistente ao ataque dessa lagarta. A preocupação maior de Ranzi será combatida com defensivos biológicos – vírus e bactérias – e outros recursos agrícolas, como o vazio sanitário, enquanto o benzoato de emamectina não chegue ao comércio.

Sem autorização. Quantidade suficiente para atender aos produtores do oeste baiano – 44 toneladas – está trancada em um depósito de Luís Eduardo Magalhães (BA), sem autorização para ser distribuída.

Quando o Ministério da Agricultura autorizou os Estados a importar o benzoato de emamectina, o governo da Bahia tomou a iniciativa. O Ministério Público local, entretanto, obteve decisão judicial favorável à busca e apreensão do produto e processou o secretário da Agricultura, o agrônomo Eduardo Salles. O produto não tem registro no Brasil, e sem o aval da Anvisa e do Ibama, entre outros órgãos, não poderia ser usado.

“As autoridades europeias e americanas demoram 12 meses para registrar um produto. No Brasil, são cinco anos”, diz Salles, ao alertar para o fato de a agricultura familiar, sem acesso a sementes transgênicas, ser a maior prejudicada pela praga das lagartas. “O Ministério da Agricultura deveria ter maior governabilidade. Essa praga chegou no Brasil arrasando.”

Registro emergencial. Há duas semanas, o ministro da Agricultura, Antônio Andrade, prometeu aos secretários estaduais o registro emergencial do benzoato. Seria incluído um artigo sobre o tema na Medida Provisória 619, que trata do aumento da capacidade de armazenamento de grãos. O texto foi aprovado há dez dias pelo Senado e enviado para a sanção presidencial. Porém, não constava o artigo esperado.

Em Goiás, a lagarta espalhou-se pelas plantações de 43 municípios na última safra, segundo o secretário de Agricultura, Antônio Flávio Camilo de Lima.

Seminários foram organizados nas áreas mais vulneráveis para informar os produtores sobre os meios alternativos ao agrotóxico. Uma das alternativas, além do uso de defensivos biológicos, é o uso de vespas que devoram as ovas das helicoverpas armígeras.

 

Denise Marin
Em O Estado de S.Paulo

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